Sarahah causa polêmica

Rio - Sarahah vem do árabe e significa ‘honestidade’. No Oriente Médio, a pronúncia soa como ‘sourórrau’. No Brasil, a mais nova febre das redes soc

Rio – Sarahah vem do árabe e significa ‘honestidade’. No Oriente Médio, a pronúncia soa como ‘sourórrau’. No Brasil, a mais nova febre das redes sociais virou logo ‘sarará’ — e ganhou novo e perigoso sentido. No lugar da ‘franqueza’ sugerida pelos criadores do site, é a ‘fraqueza’ que tem se destacado, para o bem e para o mal, e pode causar mais do que irritação no destinatário: chovem relatos de machismo, bullying e até ameaças. Não por acaso, especialistas em Direito e Tecnologia da Informação já vislumbram, no médio prazo, a possibilidade de a Justiça derrubar o site, como já aconteceu com o WhatsApp.

O serviço de envio de mensagens anônimas, que desde julho se mantém no topo dos mais baixados, despertou curiosidade e sobretudo polêmica. A facilidade para mandar aquela ‘indireta’ alimenta a controvérsia: basta saber o nome de usuário (o meu é dudupierre.sarahah.com), acessar via navegador ou no app e escrever o que der na telha. Não precisa sequer se cadastrar.

“Redes sociais criam certa distância entre as pessoas. No caso do Sarahah, os internautas se sentem mais estimulados a falar o que pensam e, às vezes, não poupam ninguém. É fácil criticar e ofender sem estar olhando nos olhos e, por isso, há a discriminação e o bullying”, alerta Eugênio Cunha, doutor em Educação e mestre em Tecnologia da Informação e Comunicação.

MACHISMO ANÔNIMO

A diversão deu lugar ao aborrecimento para as estudantes Mariana Carolina e Karen Mary. “Muitos me mandaram perguntas obscenas. Fiquei com muito medo. ‘Qual a cor da sua calcinha?’, ‘Quando foi a última vez que você transou?’, nesse nível”, relata Mariana, de 19 anos. “Acho que esse aplicativo não vai dar certo, tem muito mais ponto negativo do que positivo nele”, opina.

Karen, de 21, passou por problema semelhante. “A princípio era uma rede social que estimulava mensagens felizes e de autoestima, mas com o tempo eu comecei a ver que o aplicativo estava indo para um lado machista. Acabei deletando”, conta.

É preciso saber aguentar o que vem do Sarahah. “Para quem recebe, pode ter um lado muito positivo que te faça se autoavaliar, mas pode ser destrutivo se você não souber lidar com as críticas”, pondera a designer Luanda Printes.

ATÉ BALEIA AZUL

O anonimato é prato cheio para mal-intencionados. Alguém que conheça minimamente a rotina do destinatário pode envolvê-lo em chantagens e desafios como o perigoso ‘Baleia Azul’.

Por essas e outras, educadores veem mais fraqueza do que franqueza. “Não vejo valor algum na crítica de quem se esconde. Segundo nossa legislação, podemos expressar livremente nossos sentimentos, ideias e juízos sobre as coisas, mas devemos responder pelas nossas afirmações. Ficar anônimo é forma clara de covardia.

Honestidade não é um valor potencial do Sarahah”, ressalta Wendel Freire, especialista em Tecnologia Educacional e autor do livro ‘Ensino-aprendizagem e comunicação’.

Não adianta a rede se eximir do conteúdo

A Constituição brasileira proíbe o anonimato. “São consideradas nulas de pleno direito as cláusulas de termos de serviço que limitem, exonerem ou atenuem os direitos do usuário”, alerta Ana Amélia Amelia Barreto, presidente da Comissão de Direito e TI da OAB-RJ. “A quebra da identidade do autor das mensagens somente pode ser revelada por ordem judicial da autoridade judiciária brasileira. Mas, se o Sarahah não tiver sede ou filial no Brasil, será muito difícil que atenda, espontaneamente, a uma ordem judicial brasileira”, ressalta. “Assim como aconteceu com o Secret, o aplicativo pode ser proibido, bastando que deixe de ser oferecido o download pelos sistemas operacionais”, emenda.

Luiz Augusto D’Urso, especialista em cibercrimes e integrante da Comissão de Direito Digital e Compliance da OAB-SP, concorda. “A Justiça brasileira pode exigir a quebra de sigilo do responsável pelo envio da mensagem. Caso a ordem não seja cumprida ou não for respondida, poderá o juiz decidir pelo bloqueio do acesso à página do Sarahah e o bloqueio de download do aplicativo nas lojas de aplicativos dos smartphones, até que seja cumprida tal decisão.”

ENTENDA O SARAHAH

É necessário saber o nome do usuário (que compõe o endereço URL da página) para ‘sarahá-lo’.

Por ora, não adianta procurar o Sarahah de alguém no Google. A melhor forma de saber é perguntando a URL ao próprio.

Existe uma aba ‘explorar’, em que o site futuramente vai ‘sugerir’ pessoas (ou marcas) ‘saraháveis’.

Não dá para mandar um testamento ao seu crush ou ao seu inimigo. O site limita a 700 caracteres por mensagem, o equivalente a cinco tuítes cheios.

A empresa estuda permitir que o ‘sarahado’ responda, mas não se sabe quando a ferramenta será liberada nem se funcionará para mensagens anônimas.

PROTEJA-SE  DE ABUSOS
Ninguém, além de você, pode ver suas mensagens. A menos que você compartilhe nas redes sociais, o que muitos fazem, o que é um erro, dizem educadores.

Nas configurações do site, impeça o recebimento de mensagens anônimas. Isso obrigará a pessoa a se registrar para lhe escrever, embora a tática não funcione se o seu ‘hater’ inventar um perfil qualquer.

Desmarque a opção de aparecer nas buscas do serviço. Isso também é feito nas configurações.

Não apague as mensagens ofensivas. Denuncie cada uma ao Sararah (no ícone da bandeira) e guarde data e hora, o que pode ajudar a identificar o autor.

Fonte: O Dia

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