Campos, Macaé e Angra dos Reis têm taxa crescente de morte violenta

RIO - A comoção pela morte de Yuri dos Santos Batista foi apenas de parentes e vizinhos. Ao chegar em casa do trabalho, numa oficina mecânica, ele t

RIO – A comoção pela morte de Yuri dos Santos Batista foi apenas de parentes e vizinhos. Ao chegar em casa do trabalho, numa oficina mecânica, ele tomou banho e foi para a praça do bairro em que foi criado. Bebia refrigerante com amigos quando dois homens armados, cada um numa moto, ordenaram que todos dispersassem. Primeiro, contam as testemunhas, os bandidos atiraram para o alto. E como num cruel faroeste, enquanto as pessoas corriam, miraram aleatoriamente. Um dos disparos atingiu Yuri, que acabara de completar 20 anos. E matou o caçula de uma família de quatro irmãos, numa das áreas mais perigosas, porém desconhecida da maioria no estado: o subdistrito de Guarus, em Campos dos Goytacazes — cidade do Norte Fluminense que, em 2017, figurou pelo terceiro ano consecutivo entre as 50 mais violentas do mundo, segundo ranking divulgado mês passado pela ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz.

Era uma quarta-feira, 14 de março, quase no mesmo horário em que a vereadora Marielle Franco, do PSOL, era morta na capital. Os criminosos promoviam uma série de ataques em bairros pobres desse extremo do Rio, a cerca de 50 quilômetros da divisa com o Espírito Santo. Além de Yuri, cinco pessoas foram feridas a tiros. Vítimas de uma guerra do tráfico que, a cada dia, espalha mais medo no interior.

O interior (excluindo a capital, a Baixada e a Grande Niterói), segue na contramão do estado quanto às mortes violentas neste começo do ano. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), no primeiro trimestre de 2018, em comparação com o mesmo período de 2017, o Estado do Rio apresentou uma ligeira queda, de 1,6%, no índice de letalidade violenta — que reúne os homicídios dolosos, as lesões corporais seguidas de morte, os latrocínios e os homicídios decorrentes de intervenção policial. No interior, houve um aumento de 18%, passando de 431 para 509 casos.

NÚMERO DE HOMICÍDIOS CRESCEU

Mais de um terço desses assassinatos (201 deles) ocorreu em apenas quatro cidades: Campos (que tem a maior quantidade de homicídios do interior), Angra dos Reis, Macaé e Cabo Frio. Em três delas houve aumento no número de mortes em janeiro, fevereiro e março deste ano em relação ao começo de 2017. Em Campos, o índice de letalidade violenta subiu 11,8% (de 59 para 66 ocorrências). Em Angra, cresceu 32,4% (de 37 para 49). Em Macaé, 30% (de 40 para 52). Só Cabo Frio teve uma redução, de 20,9% (de 43 ano no passado para 34 agora).

Em Campos, nesse primeiro trimestre, dos 66 assassinatos, 77% (ou 51 deles) ocorreram na área da 146ª DP (Guarus), que inclui a região do município ao norte do Rio Paraíba do Sul, a mais pobre da cidade. As outras 15 mortes aconteceram na circunscrição da 134ª DP (Campos), que abarca o Centro e a Baixada Campista, ao sul do Paraíba do Sul. Só em março, foram 23 homicídios dolosos em Guarus. A delegacia da região foi a segunda do estado que registrou mais mortes no mês passado, atrás apenas da 54ª DP (Posse), na Baixada Fluminense.

— Perder meu filho é uma dor que custará muito a cicatrizar. Era um menino de paz e trabalhador, não tinha maldade. Agora, só tenho minha fé e minhas orações para pedir a Deus que interceda por meu garoto. O desespero não vai trazê-lo de volta — dizia a mãe do rapaz, evangélica da Assembleia de Deus, que preferiu não se identificar.

Com a segurança do estado sob intervenção federal, os militares afirmam que suas ações irão para além da Região Metropolitana. Uma primeira no dia 22 de março, na comunidade do Frade, em Angra dos Reis, apreendeu 60 quilos de maconha e cerca de mil pedestres foram revistados. Operações serão feitas em outras cidades onde o tráfico se expandiu, como Paraty, Macaé a própria Campos. Enquanto isso, assassinatos e outros crimes não param. Só em Campos, segundo os dados da ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz, ano passado foram 184 mortes (número que coincide com o de vítimas de letalidade violenta divulgado pelo ISP).

No município, com 490.288 moradores, de acordo com estimativas do IBGE para 2017, isso fez com que a taxa de homicídios alcançasse 37,53 a cada 100 mil habitantes. É mais que no Rio (32,59), o que põe a maior cidade do interior fluminense na 45ª posição na lista da ONG, que leva em consideração áreas urbanas com mais de 300 mil habitantes. O resultado representou até uma queda em relação à de 2016, quando Campos foi a 19ª mais violenta do planeta, com 275 mortes e taxa de 56,45 homicídios a cada 100 mil habitantes. No entanto, se considerada apenas a circunscrição da 146ª DP (Guarus), com seus 180,8 mil moradores, a taxa de homicídios em 2017 chegou a 64,15 por 100 mil habitantes.

Isso num cenário, segundo autoridades locais, de trégua por meses em 2017 entre as duas facções criminosas que dominam o município, o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Amigos dos Amigos (ADA), que tinham se juntado para a formação do Terceiro Comando dos Amigos (TCA). Mas pichações com a sigla TCA riscada mostram que a união acabou.

— Percebemos que essa trégua se desfez. O número de assassinatos voltou a subir, quase todos ligados à disputa entre as facções — afirma o delegado Luis Maurício Armond, titular da 146ª DP. — É uma região muito pobre, em que até o tráfico é pobre. Não circulam quantias vultosas de dinheiro, bandidos com ouro ou exibindo grande número de armas pesadas, como fuzis. Mas eles são extremamente violentos e reagem com brutalidade.

Entre as atrocidades que recentemente foram investigadas na 146ª DP, há casos de torturas e amputações a mando do tráfico. São ladrões que tiveram a mão cortada por roubar nas áreas das facções ou meninas e adolescentes que, ao desobedecerem uma ordem ou supostamente traírem os criminosos, tiveram a cabeça raspada como punição. Uma adolescente de 17 anos foi sequestrada, torturada e estuprada por nove homens no último dia 28 de fevereiro, no Parque Santa Rosa.

No bairro, um dos mais precários e temidos de Campos, no último dia 14 de março, horas antes dos ataques em série no Guarus, moradores fizeram um protesto contra as ruas alagadas depois das chuvas da semana anterior no município. Puseram fogo nos móveis perdidos nas enchentes, fechando uma das principais vias do bairro. Enquanto isso, mães denunciavam a situação no Ciep Ataide Dias, a um quarteirão da manifestação, pedindo a transferência dos filhos para outros colégios, com medo da violência que ronda a escola.

— Os bandidos ficam na porta do colégio. Que mãe quer levar os filhos para um lugar regado de drogas? É praticamente entregá-los nas mãos do tráfico — dizia uma delas, sem se identificar.

COLÉGIO ESVAZIADO

Os perigos são confirmados por funcionários do Ciep, que fica perto das comunidades Sapo I e Sapo II, numa das fronteiras dos domínios das duas facções. O número de pais que pedem a transferência dos estudantes para outras unidades disparou e o colégio, com cerca de 200 alunos, funciona abaixo da sua capacidade. Também há déficit de professores: muitos se recusam a trabalhar lá.

Seria uma das reações à prisão do traficante Francio da Conceição Batista, o Nolita, no último dia 8 de março, acusado de ser o chefe do tráfico no Parque Santa Rosa e de mandar agredir, torturar e matar integrantes da facção rival, além de expulsar moradores dos conjuntos habitacionais do Guarus para ocupar as casas. Para o delegado Armond, Nolita é quem está por trás do rompimento da trégua. Ele pertencia a um dos bandos, mas não aceitou a junção dos dois grupos. Migrou, então, para a quadrilha contrária, retomando a guerra.

Embora reflita o comportamento das facções no resto do estado, Armond acredita que, em Campos, o tráfico não tem forte ingerência dos bandidos do Rio. Seriam espécies de gangues — nem o intercâmbio de armas com a capital é comum.

Para policiais militares que fazem o patrulhamento da região, o bairro, junto com o Parque Eldorado, é uma das áreas mais críticas. Enquanto isso, dizem eles, o efetivo do 8º BPM (Campos, que cobre ainda os municípios de São Fidélis, São Francisco do Itabapoana e São João da Barra) está desfalcado — tem pouco mais de mil homens —, e a infraestrutura de armas e viaturas tampouco ajuda.

A precariedade também atinge a Polícia Civil. Na porta da 146ª DP, viaturas estão quebradas, não sendo raro que os agentes usem seus carros particulares para trabalhar. E o primeiro atendimento, tanto ali quanto na 134ª DP, é feito por guardas civis municipais, numa parceria entre as duas instituições. Mas até a atuação da guarda é afetada pela violência na região, reconhece o comandante Fabiano Mariano.

Mariano e Armond, temem que, com a intervenção federal no Rio, ocorra uma nova debandada de bandidos da Região Metropolitana para Campos — o que, segundo ele, houve na época da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Fonte: O Globo

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